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O Torneio Rio-São Paulo de 1940

 

Turbinado pela espetacular conquista do Campeonato Carioca do ano anterior, o Flamengo mantém praticamente todo o elenco, seguindo com aquele que, segundo alguns pesquisadores, é um dos melhores times de sua história. Uma equipe onde reluzem nomes como o atacante Valido (veloz e goleador), o seguro zagueiro Newton Canegal, o voluntarioso médio argentino Volante (que daria origem ao nome da posição de volante), o agressivo goleiro Yustrich (que mais tarde seria polêmico treinador) e os competentes Médio e Sá compondo o elenco. Como reforço, o atacante argentino Julio Castillo. Somente com esses nomes, o Flamengo já estaria muito bem servido e teria uma equipe respeitável. Mas ainda há Zizinho, genial no esplendor dos seus 19 anos, começando a trilhar o caminho que o tornará o símbolo do primeiro tri. E Domingos da Guia e Leônidas da Silva, ambos no auge de suas carreiras. Sobre esses dois, cabe um aparte.

Domingos da Guia chegou a ser considerado o maior jogador brasileiro em atividade, algo impensável para um zagueiro. Dono de técnica MUITO refinada, alcançou no Flamengo o status de celebridade. Para se ter uma vaga idéia do seu talento, consta que num Flamengo x Botafogo, nas Laranjeiras, Domingos se antecipa ao perigoso Heleno de Freitas e é obrigado a dar um chutão, algo raríssimo em sua carreira. Indignados, os associados do Fluminense começam a vaiá-lo. Domingos se irrita com aquilo, e no lance seguinte, uma saída de bola flamenga, recebe a bola do goleiro, posiciona-se na linha do gol e pisa na bola, provocador. Os alvinegros investem como búfalos, apenas para serem driblados um por um (foram cinco dribles secos). Na sequência, Domingos mete um lançamento de 50 metros e deixa o atacante na cara do gol. O estádio explode em aplausos.

Já Leônidas foi um dos primeiros fora-de-série do futebol brasileiro. Extremamente veloz e habilidoso, enlouquecia platéias com seus voleios e jogadas de efeito. Muito inteligente, tinha um perfeito senso de colocação e uma facilidade quase inverossímil em marcar gols. Era tão talentoso que chegou a titular da seleção brasileira ainda como jogador do modesto Bonsucesso. Mas seu temperamento difícil andava de mãos dadas com a qualidade de seu jogo. Folgado e marrento, não gostava de treinar, queria a bola no pé, era dado a forjar contusões quando não queria jogar, essas coisas. Por conta disso, teve passagens opacas no Peñarol e no Vasco. Recuperou parte do prestígio no Botafogo, mas arrumou tanta confusão que o alvinegro o mandou pro Flamengo a um precinho camarada. Mordido, Leônidas jurou que iria renascer no rubro-negro. E assim chegou ao ápice de suas glórias, vivendo com a torcida flamenga um caso de amor e ódio que só teria paralelo muitos anos mais tarde, nos anos 90.

Enfim, esse time ganhou o Carioca de 1939, encerrando um acre jejum de 12 anos (o maior da história do clube). Uma equipe que tinha três jogadores que hoje figuram na maior parte das listas de “maior time de todos os tempos”. E uma boa oportunidade para avaliar a força dessa equipe a nível nacional era o Torneio Rio-São Paulo, que seria novamente disputado após a edição de 1933.

A idéia de promover um torneio entre as principais equipes de RJ e SP é antiga. Em 1933, uma competição entre paulistas e cariocas foi disputada (sem a presença de Flamengo e Botafogo), ganha pelo Palestra Itália (hoje Palmeiras). Época de cisões, a briga entre amadores e profissionais fermentava, e os constantes litígios entre as federações impediram que a iniciativa prosperasse. Em 1940, com o futebol pacificado, é feita uma nova tentativa, agora com as principais forças dos dois estados. Com a desistência do Santos, o torneio é composto de nove equipes. Pontos corridos, dois turnos, clássicos regionais valendo pelos respectivos estaduais, por falta de datas (ainda estava previsto o Brasileiro de Seleções, em voga na época).

Logo no início, o Flamengo mostra seu poderio, ao enfiar 6-3 no América. No entanto, uma derrota para o Fluminense (1-2) o distancia da liderança. Cabe ressaltar que o tricolor é a única equipe capaz de ombrear com o Flamengo. Possui elenco poderoso, recheado de jogadores de seleção, como Tim, Batatais, Hércules e Romeu. Fla e Flu dividirão a hegemonia carioca por oito anos, de 1937 a 1944.

O Flamengo arranca suados 2-2 contra o São Paulo, no Pacaembu. Depois, a costumeira arrancada. A primeira vítima é o Palestra Itália, abatido por 3-1 nas Laranjeiras. A seguir, o Flamengo enfrenta o Corinthians, também nas Laranjeiras, e mesmo desfalcado de Leônidas faz 3-1. A seguir, já com Leônidas de volta, o Flamengo vence acirrado clássico com o Botafogo (3-2), na Gávea. O rubro-negro atropela e já é segundo, a um ponto do líder Fluminense.

O tricolor empata com o Botafogo (2-2), e agora a primeira posição está a uma vitória. O Flamengo vai enfrentar a Portuguesa, no Pacaembu. O trio Zizinho, Leônidas e Castillo já começa a chamar a atenção. O perigoso adversário não é nenhuma galinha morta, já goleou o Botafogo e ganhou do Corinthians. Mas não vai resistir a Leônidas. Irritado, mordido e MUITO a fim de jogo por conta de críticas durante a semana, o Diamante Negro resolve exibir aos paulistas toda a plenitude de seu talento. Ao lado de Zizinho, transforma o honorável gramado do Pacaembu num play-ground onde brinca de bola. Os transtornados zagueiros da Lusa não entendem o que está acontecendo. É o capeta em forma de gente, aquilo não pode ser humano. Leônidas cospe um gol atrás do outro, criva a desolada colônia portuguesa, sairá daquela jornada histórica com SEIS tentos anotados. O Flamengo faz notícia, jorra caudalosos 9-1 (NOVE a UM) na Portuguesa e agora é o líder, ao lado do tricolor.

Mas a festa logo vira drama. No dia seguinte, Castillo (autor de dois gols no genocídio do Pacaembu) simplesmente desaparece, ninguém consegue notícias. Mais um dia, a verdade aparece. Crise aguda de diabetes, internação às pressas no hospital, estado grave. Enquanto o argentino (que já começava a aparecer com gols e belas jogadas) piora, o Flamengo enfrenta o Vasco, na Gávea. Mesmo assim, vence facilmente por 3-0 e se mantém na liderança, ao lado do Fluminense. Mas, após o jogo, o pior, a tragédia. Castillo não resiste e morre, o que faz com que a Gávea absorva em silêncio e lágrimas a dor pela perda do promissor atacante.

Assim, termina o primeiro turno do Rio-São Paulo. Flamengo e Fluminense na liderança, ambos com 13 pontos. Não há critérios de desempate, mas o Flamengo possui o melhor ataque, a melhor defesa, mais vitórias, o artilheiro (Leônidas) e de brinde leva a maior goleada da competição. É, longe, o time de melhor futebol do torneio. Mas os clubes paulistas desistem de disputar o segundo turno. Alegam baixas arrecadações, no que estão certos. Somente os clássicos regionais conseguem atrair público. Os cariocas, por outro lado, reclamam das pesadas taxas de administração cobradas nos estádios paulistas, notadamente o Pacaembu. Surge um impasse, e a competição é paralisada.

Num primeiro momento, Flamengo e Fluminense são declarados campeões, mas a CBD (precursora da CBF) volta atrás e declara o campeonato inacabado. No entanto, em edições posteriores (1964 e 1966), o Rio-São Paulo novamente não será concluído, e o título será dividido, o que torna intrigante a manutenção da decisão sobre o torneio de 1940, até porque um turno completo foi disputado.

Seja como for, a competição de 1940 mostrou o poderio da equipe flamenga. Um time capaz de vencer, até com facilidade, as principais forças do país. Um grupo que, na primeira competição interestadual não amistosa de que fez parte, expôs ao país a força do nome Flamengo e erigiu-se campeão.

Um campeão interrompido. Mas campeão.


Última atualização: 30/11/11. Política de privacidade  |  Mapa do Site